Um olhar sobre o adoecimento existencial

Na perspectiva fenomenológico existencial, o ser humano se dá em abertura, lançado ao existir que é totalmente liberdade. Segundo (Forghieri, 1996) o ser humano “é ser-no-mundo, pois sua existência se dá em meio a outras coisas, a algo ou alguém”.
Neste sentido o mundo não é caracterizado apenas pelo que é visto objetivamente, como ambientes, objetos, animais, pessoas, natureza... Assim, o mundo se dá para o existente, a maneira como se posiciona frente aos fatos e ao modo que significa suas vivências existenciais, constituindo assim um modo de ser mais próprio. Paralelamente a isso o mundo vai se constituindo de maneira bastante particular, nessa relação ser-no-mundo.
Lançados nesse mundo de possibilidades o existente se depara com a necessidade de fazer escolhas. Escolhendo, passa a lidar com aquilo que ficou para trás e com as consequências diante de sua escolha.
Durante sua jornada existencial, o ser humano se depara com obstáculos e inseguranças que rompem com muitas possibilidades causando restrições e dificultando realizações de vida. O imprevisível, a facticidade e adversidades as quais todos nós estamos sujeitos o tempo todo, revela a soltura que nos faz lançados num mundo em que não nos dá certeza de nada, apenas da morte. Dessa maneira o existente necessita de coragem para ser e para viver. (Forghieri,1996).
Durante a trajetória de vida, podem surgir contrariedades e sentimentos intensos de angústia que se não for significada e compreendida pela pessoa, pode favorecer distanciamento da situação vivida, trazendo evitação e fechamento diante dos acontecimentos.
Quando esse modo de se comportar vai se tornando frequente, essas situações, que são inevitáveis ao existir humano, podem continuar ocorrendo por toda vida, acumulando-se sem significados e sem as compreensões necessárias para alcançar um equilíbrio. “Assim, a pessoa vai se sentindo cada vez mais contrariada e insatisfeita consigo e com seu mundo, tornando-se existencialmente doente”. (Forghieri, p. 104,1996).
A partir desse fechamento e da restrição de possibilidades surge a psicopatologia e os diagnósticos, porém, vale ressaltar que o nome atribuído ao conjunto de sintomas definidos por manuais como a CID e o DSM, serão mais um dado para o psicólogo que tem essa linha teórica de trabalho, mas não será o ponto central para compreendê-lo, tendo em vista a premissa de olhar o ser humano como se mostra, lançado ao seu existir, de modo particular, considerando que seu modo de ser e estar no mundo fica totalmente relacionado com as significações atribuídas aos fatos vividos.
Por outro lado, vale salientar que em alguns casos, o encaminhamento para psiquiatria se faz necessário por um período, até que o paciente possa se reestruturar para continuar sua jornada existencial sem o medicamento. (Esse assunto é muito importante e será abordado em textos futuros com mais detalhes).
Assim, fica clara a importância da atuação do psicólogo como mediador nesse processo. Em psicoterapia o profissional buscará acolher, compreender e possibilitar novas reflexões a partir de intervenções e pontuações realizadas baseando-se no discurso do próprio paciente, favorecendo assim, novos olhares e significados sobre seu existir.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
Forghieri, Yolanda Cintrão. (1996). Saúde e adoecimento existencial: o paradoxo do equilíbrio psicológico. Temas em Psicologia, 4(1), 97-110. Recuperado em 16 de abril de 2017, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1996000100009&lng=pt&tlng=p
Autora:
Fernanda Carvalho Araújo Vitorino
Psicóloga
CRP: 06/124664